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AS CORES DOS AUTORES 84ª EMISSÃO 21 SETEMBRO 14:30/16:30H

Escrito por em Setembro 19, 2019

ALBERTO PEREIRA. SIMBIOSE E REFLEXÃO.

AS CORES DOS AUTORES.

Na tela da Rádio, Histórias, Conversas, Ideias, Sensibilidades. Esculpindo Memórias. Produz Realiza JORGE GASPAR.

Emissão 84 – 21 Setembro.

Em estúdio, ALBERTO PEREIRA. Escritor, Poeta. Membro do PEN Clube Português. Em destaque a sua atividade literária, com oito livros já publicados, e na Poesia, nomeadamente o último “Como num naufrágio interior morremos” , já com duas edições em 2019. O prefácio foi concebido por Gonçalo M. Tavares, de quem José Saramago disse, que seria o próximo prémio Nobel português.

Alberto Pereira nasceu em Lisboa. Licenciado em Enfermagem.

Pós-graduado na área Forense. Diplomado em Hipnose Clínica.

Publicados os seguintes livros:

  • O áspero hálito do amanhã (2008).
  • Amanhecem nas rugas precipícios (2011), dedicado a João Aguardela (Sitiados), tratado por Alberto Pereira em meio hospitalar, e que faleceu com 39 anos.
  • Poemas com Alzheimer (2013).
  • O Deus que matava poemas (2015).
  • Biografia das primeiras coisas (2016).
  • Viagem à demência dos pássaros (2017).
  • Bairro de Lata (2017).
  • Como num naufrágio interior morremos (2019).

Participou em colectâneas de contos e poesia, das quais se destacam: Antología de Poesía Iberoamericana Actual, Antologia da Moderna Poética Portuguesa, Textos de Amor (Museu Nacional da Imprensa), À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, Inefável, Cintilações da Sombra III, Bicicletas para Memórias & Invenções IV e V, Revista Caliban, Palavra Comum, Literatura & Fechadura, Tlön IV, Nervo III, Cintilações I e II.

Alguns dos seus poemas foram traduzidos para espanhol e francês.

O livro Poemas com Alzheimer deu origem a diversos quadros concebidos pelos pintores espanhóis Martina Bugallo e Sergio Gonzalez Ribeiro. A sua obra foi igualmente recriada por Artistas Plásticos portugueses.

 Obteve os seguintes prémios literários: 1º Prémio do Concurso de Poesia, “Ora, vejamos” (2008); 1º Prémio no Concurso de Poesia da ACAT (2009); 3º lugar no Prémio Sepé Tiaraju de Poesia Ibero-Americana, entre 3027 obras inscritas de 26 países (2009); 1º Prémio do Concurso de Conto “Ora, vejamos” (2009); 1º Prémio do Concurso Literário Conto por Conto (2011); 1º Prémio no XIV Concurso de Poesia Agostinho Gomes (2013); 1º Prémio no Concurso Literário Manuel António Pina, Museu Nacional da Imprensa (2013); Menção Honrosa no Prémio Internacional de Poesia Glória de Sant´Anna (2018).

COMO NUM NAUFRÁGIO INTERIOR MORREMOS 

1ª edição  apresentada em Lisboa em Março 2019;

2ª edição apresentada em Santiago de Compostela (Espanha) em Maio de 2019.

Prefácio de Gonçalo M. Tavares e posfácio de Ronaldo Cagiano.

RONALDO CAGIANO (Escritor, Ensaísta, Crítico Brasileiro)

“Alberto Pereira (…) alcança a plena consolidação de sua oficina poética e a estabilidade de seu nome entre as melhores vozes da poesia portuguesa contemporânea, é uma palavra em permanente diálogo com os próprios signos da poesia. Uma característica vital de sua concepção criativa, é que que para o poema — e além dele — o poeta deambula-se com uma permanente inflexão metapoética, num caminho de conectividades, do flerte e da intercessão com outros autores e obras. Estão presentes nesses poemas as suas leituras, as suas preferências, os seus totens, as suas ambiências e empatias artísticas. Um poeta dos encontros e dos encantos, que bebe nas melhores fontes, retém grandes ecos: de Borges a Stravinski, de Cesariny a Whitman, de Einstein a Monet, de Rimbaud a Pina Bausch, da pintura ao teatro, da música ao cinema, da Física ao xamanismo, do Danúbio ao Amazonas, de Miles Davis a Kavafis, da dança à política, muitos são os sopros vitais que o conduzem.”

GONÇALO M. TAVARES (Escritor, Professor Universitário)

“A epígrafe de Arno Schmidt

E os olhos deles brilhavam
como as janelas de um manicómio em chamas.

dá esse tom de pedido de socorro, por um lado, e de uma certa alucinação. Olhos alucinados, palavras alucinadas neste livro de Alberto Pereira.
O livro avança nesse caminho do desvio constante, desvio que salta sem olhar para trás (…) como se tivesse sido dada a permissão à linguagem para não parar.”

JAIME ROCHA (Poeta)

“Um monólogo interior torrencial à procura do espaço do poema. O que me agrada na poesia de Alberto Pereira é o fulgor da palavra, o tapete poético que ele estende para o pensamento. A poesia portuguesa contemporânea renova-se, cruza-se num rio de vozes e é aí, nessa fissura de encontros, que Alberto Pereira tece a sua rede de palavras, de referências e de invocações, numa elegância e num envolvimento singulares em que predomina a metáfora, a imagem corpórea e a reflexão filosófica. Uma poesia que surpreende, agita, questiona e comove, o que para o leitor é uma matéria luminosa.”

RICARDO GIL SOEIRO (Ensaísta e Poeta)

“Após o aplauso crítico a Poemas com Alzheimer (Glaciar, 2013) e a Viagem à Demência dos Pássaros (Glaciar, 2017), Alberto Pereira regressa com um livro intenso, pleno de um fulgurante lirismo, em que a desenvoltura rítmica fertilmente se cruza com a exuberância imagética de sempre. Em Como num naufrágio interior morremos, o autor pratica aquilo que Gamoneda apelidou uma arte da memória diante da perspectiva da morte. O próprio título – enigmático, desarmante, visceral – remete para a interrogação da finitude que não pode deixar de assaltar quem a si mesmo se interroga. Forjando um “catálogo para desabar”, exaltando “comícios do ego”, as palavras que aqui semeiam inquietude como que se acendem nessa escuridão feliz, escolhendo arder num fogo lento. Se nos fosse permitido parafrasear desassombradamente a epígrafe deste livro, diríamos apenas que estes versos insistem em brilhar como as janelas de um manicómio em chamas. O poeta di-lo melhor: “Respira como um pântano que acordou”. E nós, leitores de coração feito tumulto, simplesmente obedecemos.”

ESTENDAL DE VULCÕES (Livro- Amanhecem nas rugas precipícios)

Há quanto tempo o cérebro não vai ao dentista?

Uma sarjeta mal vigiada

acaba sempre a florir aftas.

Porque não arrancar os preservativos às palavras

para que os homens aconteçam.

Escurece-os a impotência dos dentes

sempre acomodados à crise das gengivas.

O palato não nasceu para engolir o escuro.

Vergar a língua é encomendar

um caixão para a cabeça.

Talvez por isso,

a boca seja um estendal de vulcões,

farto de se adiar em aspirinas.

Há quanto tempo o cérebro não vai ao dentista?

Sílabas sem esmalte,

são barbatanas para a cárie.

Mas os lábios têm por destino,

afogar lanças em perfume.

O pântano chega mais tarde,

quando o tártaro inunda o látex.

Os homens não sabem que as rugas começam na garganta.

ÁLVARO GIESTA, escreve sobre a poética da influência em Alberto Pereira na obra: “COMO NUM NAUFRÁGIO INTERIOR MORREMOS”:

Alberto Pereira dá-nos uma poesia de simbiose, reflexiva em que domina o
metatexto, como consequência desta simbiose.

(o que é a simbiose?)
 em termos ecológicos, simbiose é uma associação entre espécies diferentes
(sejam vegetais, sejam animais) que “acasalam” na perfeição para melhoria da
espécie.  logo:
há uma relação benéfica entre os indivíduos envolvidos.
No texto, essa simbiose verifica-se pelas preferências do autor por outros autores
elegendo-os como seus totens, como seus emblemas, como seus símbolos
ancestrais, prestando-lhes culto com inflexões metapoéticas, elegendo o
metatexto como concepção criativa, como criação cultural e afectiva nesta
intercessão com outros autores.
Nesta poética de simbiose há limites e vantagens para o hospedeiro

aquele que recebe do outro
(neste caso o A.P. e apenas em ” COMO NUM NAUFRÁGIO INTERIOR
MORREMOS”, obra sobre que me debrucei),

e para o simbionte  criatura alienígena,
elemento alienígeno, aquele que é de outro lugar, que é forasteiro, que é de fora,
que é de outro país ou, sendo do mesmo, é de outra época, é de outro tempo.
Na obra em questão os autores com quem se cruza A.P. são vários: Ruy Belo,
Stravinsky, Cesariny, Goya, Monet, Renoir, Borges, Whitman, Rimbaud,
Einstein, Kavafis, etc  eu disse: autores e não, poetas, porque este nosso poeta,
aberto a novos sentires e ressonâncias, cruza-se também com autores da arte
pictórica.

esta simbiose é benéfica
porquanto nos vem dar a evolução literária no conhecimento que o poeta tem
relativamente ao simbionte, mais ou menos neutra e, por vezes, benéfica porque

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pode ajudar a “desenterrar” (no sentido figurado) do esquecimento que muitos autores têm daquele com quem se faz a simbiose(…)

  • poema XVII a pag 38/39:
    «Pela lonjura
    a infância é agora anemia.
    O cantil da inocência
    está vazio de especiarias
    e as mães já não vêm
    polonizar o medo com açafrão
    (…)
    Como Gamoneda, questionamos:
    Que hora é esta,
    que erva cresce na nossa jventude?
    A velhice,
    lento definhar do incenso.»

Da conversa com Maria João Cantinho, Autora, ensaísta e poeta, 4 livros de ficção publicados, 4 livros de poesia e 1 ensaio. Doutorada em Filosofia.

Como encaras (e como te situas) no panorama da actual poesia portuguesa?

Encaro o actual panorama da poesia portuguesa com alguma apreensão. O desassossego não se refere ao valor dos poetas, mas ao mundo editorial. Um pouco à imagem do que se passa no país, para termos acesso a determinados parâmetros não basta a competência. Houve um tempo em que acreditei que os olhos seriam em todas as horas pinturas de Matisse. Depois percebi que é muito difícil a ascensão, para quem quer ser independente. Continuo a aproximar-me do que diz Maria Filomena Molder: “Qualquer obra de arte é também uma resistência à tentação de ser arrastado, de se deixar adormecer na neve, uma resistência ao prazer de continuar a ouvir os harmónicos perfeitos, para os obrigar a ressoar”.

Relativamente ao lugar onde me situo na poesia portuguesa, tento estar no digno cenário onde a Maria João Cantinho me colocou um dia. No lote dos poetas que fazem o seu percurso numa certa marginalidade literária. Incólume e intacto. Avesso a modismos e à subserviência. Em suma, obedecendo unicamente ao instinto poético.


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