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“JOAQUIM PINTO – O BARBEIRO DO PODER” FOTOBIOGRAFIA/50 ANOS DE PROFISSÃO.

Escrito por em Fevereiro 25, 2018

“JOAQUIM PINTO – O BARBEIRO DO PODER” da autoria de Paulo A. Monteiro é uma fotobiografia com a história do lojista mais antigo do apollo 70, em Lisboa, que comemora este ano 50 anos de profissão.
Pelas suas tesouras já passaram quatro Primeiros Ministros e dois Presidentes da Republica.
No cabeleireiro do senhor Joaquim Pinto, os políticos e figuras que marcam a vida política e económica do País, continuam a ser clientes habituais de um salão que abriu em 1971, no então, maior shopping da Europa.
Paralelamente à sua actividade de barbeiro, Joaquim Pinto começou a colecionar peças ligadas à profissão, que pela sua quantidade e qualidade, decidiu criar o Museu do Barbeiro a funcionar também no Apollo 70.

Prefácio de Francisco Seixas da Costa, Diplomata:
O termo britânico “gentleman” comporta duas palavras: “gentle”, que pode traduzir-se por “gentil” e “man”, de homem. Juntas, significam “senhor”, no sentido mais nobre do conceito. O meu amigo Joaquim Pinto é um “gentleman”, um “senhor”, nesse mesmo e completo sentido, porque tem em si a educação e a gentileza simples de quem sabe estar e a postura de dignidade de quem faz da vida um acto de atenção natural para com os outros.
Conheci-o há quase quatro décadas. Comecei como cliente de um seu colaborador e, com a morte deste, passei, há mais de 30 anos, para as suas mãos profissionais. Por muito tempo, por viver longe, no estrangeiro, não o visitava com a regularidade dos clientes vulgares. O meu ritmo era muito errático. Às vezes telefonava-lhe a marcar hora, do outro lado do mundo, para garantir “slot” na minha passagem imediata, quase sempre apressada e cheia de compromissos, por Lisboa.
Não foram poucas as vezes em que, durante esses tempos lá fora, tive de explicar, aos amigos e à família, que o comprimento, por vezes exagerado, do meu cabelo não era uma opção estética, uma espécie de “beatlemania” tardia e grisalha, mas apenas a consequência de estar, pacientemente, a aguardar por uma deslocação lisboeta ao meu “barbeiro” – eu sei que já quase ninguém “faz a barba”, mas eu ainda prefiro o conceito ao de “cabeleireiro de homens”.
É que nunca conheci alguém no mundo que soubesse cortar o meu cabelo como Joaquim Pinto, com quem mantenho códigos acertados sobre o grau desejável de tosquia, desenhada esta, às vezes, em função de certos compromissos imediatamente subsequentes.
Passei pela mão de barbeiros islandeses, franceses, noruegueses, americanos, brasileiros, austríacos, angolanos, romenos, escoceses e até um turco – mas nunca, com nenhum, consegui estabelecer aquela relação de cumplicidade que permite ter a garantia de que quem nos trata do cabelo sabe exatamente o que pretendemos.
Dentre as várias alegrias que o regresso definitivo a Portugal me trouxe conta-se a possibilidade de, com serenidade e previsão, poder dar uma “saltada ao barbeiro”, quando de tal necessito. E, ali chegado, sinto-me em casa. Para mim, “ir ao barbeiro”, em Lisboa, tornou-se já, não numa obrigação ritual, mas num ato social de convívio que cumpro com prazer, de partilha de conversas soltas, sobre as nossas famílias, sobre a vida, com referências, da parte dele sempre simpáticas, a alguns conhecidos desse informal “clube dos clientes de Joaquim Pinto”.
Quantas vezes, em conversas com pessoas que cruzo profissional ou socialmente, ao vir à baila o nome do nosso “barbeiro”, damos conta de pertencermos ambos a esse seleto “clube”. E, desde logo, cria-se ali uma intimidade acrescida, estabelece-se um laço de união, feito de inevitáveis elogios à figura discreta e educada em cujas mãos profissionais ambos nos entregamos. Até lá por fora, pelo mundo, reforcei relações com base nesse vínculo comum – de que o exemplo mais flagrante foi o saudoso embaixador brasileiro, Dário Castro Alves, em cuja homenagem, que lhe promovi na nossa embaixada em Brasília, o nome do nosso comum amigo Joaquim Pinto foi citado.
É sabido que Joaquim Pinto tem um muito alargado “carnet” de clientes, com figuras variadas, dos negócios à política, da cultura à diplomacia. Porém – o que é notável, para uma profissão onde a conversa é a “música de fundo” do ato profissional – nunca a sua boca se abre para a menor indiscrição, o que nos garante a liberdade para com eles nos “confessarmos”, como se faz com os amigos, qualidade em que ele se transformou.
Há uns tempos, fiz-lhe uma surpresa. O município da sua terra natal, Resende, organizou uma homenagem e honrou-o com a sua mais alta distinção. Eu, que por acaso estava a umas dezenas de quilómetros dali, tive o grande gosto de, sem o avisar previamente, ir assistir ao ato. E foi muito interessante poder observar o carinho e o respeito que a Joaquim Pinto e à sua Família eram votados pelas pessoas da terra, o reconhecimento do seu prestígio junto das autoridades e pessoal locais. Afinal, não é só em Lisboa que Joaquim Pinto é estimado.
O livro que o leitor tem perante si fala por si próprio, sem quase necessitar de prefácio. Aqui está um percurso de vida, subida a pulso, graças a trabalho, dedicação e empenhamento. Nessa vida, fui testemunha de tempos menos fáceis, de contrariedades, de desilusões, para não utilizar termos mais fortes. Mas sempre vi Joaquim Pinto reagir com serenidade, com estofo, com grandeza e com o imenso sentido profissional que é o seu. Esse é, aliás, a chave do seu sucesso: trabalho, seriedade e um saber-estar muito raro – raro mas comum nos homens de bem e que se sentem de bem com a vida.
Este livro é a montra dessa mesma vida – do homem de família ao profissional ilustre. Aqui fica evidenciado também o empenhamento na divulgação da sua arte, que o levou à constituição de um interessante património museológico, bem como à alimentação de um blogue profissional, ambos com apreciável sucesso. Aqui se juntam testemunhos de amigos, embora apenas de um punhado dos muitos que ele tem, que assim quiseram dar- -lhe um abraço escrito de simpatia e admiração. É que é para todos nós muito gratificante podermos ter o ensejo de testemunhar o nosso respeito a essa personalidade detentora de elevada qualidade humana que é o nosso amigo Joaquim Pinto.

O HOMEM E A TERRA NATAL
«Ó moço, tu aí, ainda um dia vais ser barbeiro!»

Foi em São Martinho de Mouros, pequena e acidentada freguesia do concelho de Resende (abundam os penhascos e multiplicam-se os cabeços), localizada «na encosta do rio Bestança, a caminho do Douro» e que, em tempos outros e alargados (entre o primeiro quartel do século XII e meados do século XIX), foi sede de concelho, que, no dia 26 de Janeiro de 1942, nasceu Joaquim Pinto. Era o terceiro de sete filhos (quatro raparigas e três rapazes) de Manuel Pinto, pequeno agricultor local, e de Maria da Conceição, doméstica, a quem, à partida, parecia destinado o amanho das terras e o apascento do gado.
Só que, contrariando todas as expectativas e o que parecia realmente «pré-estabelecido», não foi, de facto, o que veio a acontecer…
Hoje, atingido um patamar de excelência na profissão de barbeiro e cabeleireiro, Joaquim Pinto assume-se como um homem realizado. Di-lo (mostra-o), com a cordial discrição que regularmente o acompanha e na serenidade que costuma transmitir a quem com ele se cruza.
Com orgulho nas suas origens e, a exemplo do rio que atravessa a terra natal, também ele soube, rasgar os caminhos difíceis da vida, com a determinação que o projetou para um lugar cimeiro entre os cabeleireiros de referência no país. A ponto de, desde há muito tempo (e já lá vão cinquenta anos), a sua cadeira profissional se ter transformado num «ponto de encontro» de uma importante fatia da elite portuguesa, política, económica, cultural e social. Além de que – questão importante – é reconhecido, por muitos dos seus pares, como um dos lideres do desenvolvimento e da evolução da profissão.
Distantes, distantes mesmo, vão os tempos de uma meninice, em que, em São Martinho de Mouros, à semelhança aliás do que acontecia em muitas outras terras do país, a arte de barbear era uma atividade exercida por barbeiros que iam, de porta em porta, ao encontro dos clientes, aceitando, inclusive, que o pagamento fosse feito através de avenças anuais que podiam ser de alqueires de milho ou de litros de azeite.
Criança ainda, finda a escola e o apascento do rebanho nas encostas da Serra das Meadas, quando a noite era chegada e o caldo havia sido comido à luz da candeia, Joaquim ainda conseguia encontrar tempo (e disposição) para sonhar com a magia das tesouras que, lá na terra, um barbeiro experiente, sabia bem dominar. E que ele tanto gostava de ver trabalhar.
«Ó moço, tu aí, ainda um dia vais ser barbeiro!» – gritava-lhe o dono da barbearia da terra quando ele, «especado» diante da porta, tentava ver o que se passava lá dentro…

Paulo António Monteiro.
 


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