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MARIA JOÃO PIRES

Escrito por em Fevereiro 11, 2021

12 Fevereiro 19:00 Plataformas digitais da Fundação Calouste Gulbenkian.

Concerto para Piano n.º 20 de Mozart

Orquestra Gulbenkian / Maria João Pires / Lorenzo Viotti

Maria João Pires regressou em dezembro ao Grande Auditório para tocar, com a Orquestra Gulbenkian dirigida por Lorenzo Viotti, o Concerto para Piano n.º 20 de Mozart. Este é o primeiro de vários concertos que poderão ser vistos, ora às sextas, ora às terças-feiras, sempre às 19:00, nas nossas plataformas digitais. Ao concerto de Mozart tocado por Maria João Pires segue-se, na terça-feira, 16, a Sinfonia n.º 3 de Brahms, pela Orquestra Gulbenkian, dirigida por Mihhail Gerts.

 


PROGRAMA

Orquestra Gulbenkian
Lorenzo Viotti Maestro
Maria João Pires Piano

Wolfgang Amadeus Mozart (1756  1791)
Concerto para Piano e Orquestra n.º 20, em Ré menor, K. 466
– Allegro
– Romance
– Rondo: Allegro assai

Composição: 1785
Duração: c. 32 min.

No início do mês de fevereiro de 1785, Mozart finalizava, em Viena, o Concerto para Piano e Orquestra n.º 20, obra-prima do seu legado concertante, influenciada pelo coevo Sturm und Drang. Somente à luz deste movimento literário peculiar se pode, de resto, atribuir pleno significado ao dramatismo intenso da secção introdutória do Concerto n.º 20 e à invocação constante de sentimentos interiores, enevoados, muitas vezes, por inquietações e angústias.

No primeiro andamento, o pathos denso e lúgubre da introdução lenta preludia a entrada do solista com o primeiro tema, em gesto ascendente e pausado, qual interrogação existencial talhada não apenas pela incerteza ante as contrariedades, mas também pela esperança na resolução dos problemas e conflitos. Os vivos ritornelos orquestrais agudizam a essência da dialética, a qual pressupõe um plano filosófico e de reflexão existencial que alimenta, a todo o momento, o fluir das ideias musicais. Neste sentido, podem aqui vislumbrar-se traços da mentalidade romântica, os quais viriam a ser invocados, mais tarde, pelo compositor e crítico E. T. A. Hoffmann (1776-1822). O segundo tema desta forma de sonata de primeiro andamento traz consigo a serenidade e a paz. O ritornelo que se segue retoma o material do início do andamento, antes de o solista trazer de novo à textura o segundo tema, processado, a partir de agora, em torrentes melódicas e rítmicas alargadas, já no âmbito do desenvolvimento. No termo da recapitulação, o solista tem espaço criativo para a cadência final, de acordo com a convenção seguida na época.

O segundo andamento prossegue a mesma linha intimista, dominada pela melopeia aparentemente ingénua do piano, a qual, aos poucos, vai desvendando os recantos mais escondidos da alma humana, sob a moldura expressiva das cordas. Este refrão alterna com episódios intermédios, num contínuo que não deixa de fazer sentir, a dado momento, as brumas inquietantes do primeiro andamento. É, contudo, o tema apaziguador do solista que prevalece nos últimos compassos.

Aproximando-se da mesma conceção formal do andamento anterior, o Rondo final impõe renovada vivacidade ao discurso musical, envolvendo solista e orquestra num crescendo de tensões, para o qual concorrem as abundantes indicações de dinâmica. As interações entre o piano e a orquestra anunciam uma nova forma de encarar o género concertante: como um jogo de forças antagónicas em que o virtuosismo técnico do solista passa a desempenhar um papel decisivo. Também deste ponto de vista se prefiguram na obra as tendências iminentes do Romantismo musical.

Rui Cabral Lopes


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