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HOJE NAS LIVRARIAS "REGRESSO A CASA" CHANCELA QUETZAL

Escrito por em Agosto 14, 2020

De JOSÉ LUÍS PEIXOTO

«As estantes são ruas. Os livros são casas onde podemos entrar ou que podemos imaginar a partir de fora. Há livros que visitámos e há livros onde vivemos durante certas idades, conhecemos cada uma das suas divi-sões, trancámo-nos por dentro. Fomos jovens durante tantos capítulos mas, de repente, um dia, apercebemo-nos de que restavam cada vez me-nos páginas entre o polegar e o indicador.»

Intimidade, confissões, família, memória e pacificação.

Doze anos depois de Gaveta de Papéis, é Regresso a Casa que traz Jose Luis Peixoto de volta à poesia.
O novo livro do autor de Autobiografia fala-nos a partir das quatro paredes de uma casa – e de todas as suas recordações em tempos de pandemia. Evoca a solidão, o isolamento, as portas fechadas, mas também a solidariedade das recordações: a mãe, os aromas, a família, a aldeia, o amor.

Há espaço para a recordação da infância como para a peregrinação pelo mundo inteiro, como um Ulisses em viagem perpétua, rodeado de objetos próximos e voltado para dentro, para o lugar onde se regressa sempre: a casa. «As estantes são ruas. Os livros são casas onde podemos entrar ou que podemos imaginar a partir de fora. Há livros que visitámos e há livros onde vivemos durante certas idades, conhecemos cada uma das suas divisões, trancámo-nos por dentro. Fomos jovens durante tantos capítulos mas, de repente, um dia, apercebemo-nos de que restavam cada vez menos páginas entre o polegar e o indicador.»

CHENGDU, REGRESSO A CASA

Chengdu

Impressiona-nos estar tão longe de casa. No Parque do Povo,

com as duas mãos, pousamos chávenas de chá sobre mesas

de pedra. À mesma velocidade, flores de lótus flutuam no lago.

Por 10 yuan, especialistas com um cinturão de ferramentas

limpam-nos as orelhas. Olham demoradamente através desse

canal, observam ideias esdrúxulas, tentam compreendê-las.

Mas nós comparamos a província de Sichuan com Fornos de

Algodres e com o Alto Alentejo. Quem poderia imaginar que

fosse tão curto o caminho entre a rua de São João e a rua

Chunxi? De repente, percebemos que somos uma família

de pandas. Toda a gente olha para nós porque falamos alto.

As minhas irmãs e os meus cunhados refletem as cores

dos neons nas lentes dos óculos. Mas nós queremos é

a confusão de Jinli. Enchemos dois táxis, tememos que um

se perca do outro e nunca mais nos encontremos na vida.

Entre multidões espremidas em vielas, somos uma família

de pandas, comemos massa picante com pauzinhos e,

pelo menos, sabemos pronunciar Chengdu corretamente.

(Poema in Regresso a Casa 2020)

GALVEIAS, REGRESSO A CASA

Entro com a minha mãe no quintal da nossa casa

Entro com a minha mãe no quintal da nossa casa.

A terra está coberta por folhas de várias estações.

Os pessegueiros perguntam por onde andámos,

porque demorámos tanto. As plantas dos canteiros

transbordaram, embaraçaram-se numa espécie de

desespero. A água do tanque de lavar a roupa é

verde. O pombal não tem pombos. A coelheira

não tem coelhos. A capoeira está habitada pela

memória de galinhas submissas e galos no poleiro,

desconfiados de qualquer movimento. Às vezes,

como antes, sentimos a chegada da gata, é uma

presença, uma intuição, vem cumprimentar-nos,

é uma gata livre, salta pelos quintais, escolhe as

pessoas com quem quer estar, apesar de invisível,

é agora o fantasma de uma gata. Ao fim da tarde,

com as janelas abertas, o que escreve a minha mãe

sobre a mesa da cozinha? Muito provavelmente,

escreve postais aos mortos, dá-lhes notícias com

a sua caligrafia de voltas demoradas. Ela própria

receberá esses postais quando for às casas vazias

ver se há correio.

(Poema in Regresso a Casa 2020)