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"OLHA-ME COMO QUEM CHOVE" ALICE VIEIRA.

Escrito por em Maio 9, 2018

A poesia intimista de um grande nome da nossa literatura.
O novo livro de poesia de Alice Vieira, Olha-me Como Quem Chove, ganha o título e inspira-se num verso de Ruy Belo, que serve também de epígrafe a este livro.
O quotidiano de amores reencontrados e perdidos, de recordações como apoio da vida, da aprendizagem de novos lugares e de novas sensações, das perdas que se enraízam na nossa pele e nos ajudam a sobreviver, são alguns dos temas destes poemas que também inspiraram os seus anteriores livros de poesia, bem como o espectáculo Toda a Cidade Ardia, levado à cena no Teatro Aberto.
Sucata
o que levam das nossas vidas
as coisas velhas que deitamos fora porque
as casas são pequenas e os objectos
envelhecem agora mais depressa
do que nós
nas velhas casas
os lençóis de linho e as arcas de cânfora
e os serviços de chá onde se via
uma chinesa no fundo das chávenas
que um tio avô
tinha trazido de Cantão
sobreviviam sempre a todos os mortos
e passavam de cama para cama
e de sala para sala
e de mesa para mesa
e eram sempre os mesmos
e nós tão outros
mas agora tudo é feito
para morrer depressa e
sem deixar mágoa nem vestígio
e que fazem dentro das nossas vidas
gravadores de fita máquinas de escrever
cassettes onde aprisionámos
histórias momentos e rostos
que julgávamos eternos
e que pensávamos rever
a vida inteira
–o senhor da sucata estava feliz
agradeceu muitas vezes
enquanto amontoava tudo
deixando a minha casa
subitamente maior
(ou muito mais pequena
conforme o ponto de vista)
ALICE VIEIRA
Escritora portuguesa de livros infantis e juvenis, nascida em 1943. Neste domínio da literatura, ganhou em 1979 o Prémio do Ano Internacional da Criança, com Rosa, Minha Irmã Rosa. Tem publicado regularmente obras em volume – entre elas, Chocolate à Chuva (1982) e Graças e Desgraças da Corte de El-Rei Tadinho (1984) -, sendo paralelamente redatora do Diário de Notícias e responsável editorial por literatura para a infância e juventude.